Revistas na Internet

por Mila Simões de Abreu [versão integral de texto publicado na rubrica "Escavando Online", in Al-Madan, IIª Série, n.º 17: 174-175]

 

 

“Si hortum in bibliotheca habes, deerit nihil”

[qualquer coisa como “se tens um jardim e uma biblioteca, tens tudo o que necessitas”]

Marcus Tullius Cicero (106-43 a.C.), numa carta a Terentius Varro – Epistulae ad familiares, 9.4.1

 

 

Sem dúvida que, em parte, Cicero tinha razão. Uma sociedade com livre acesso a livros e à natureza é uma sociedade “feliz” e “rica”. Desde que foi inventada a escrita, muitos foram os textos escritos e partilhados mas, por vezes, esquecemo-nos hoje que tal “prazer” era reservado a muito poucos. Mesmo sabendo ler, poucos acabavam por ter acesso frequente, fossem esses textos aplicados em plaquettes de argila, papiros ou pergaminhos. A sua produção era fruto de trabalho muito lento e a sua distribuição muito limitada. Hoje, graças à Internet, é possível ler facilmente os textos de Cicero e de muitos outros autores clássicos na The Latin Libary, por exemplo, ter acesso a milhares de placas na página Cuneiform Tablet Collections, ou ver os famosos e frágeis manuscritos do Mar Morto na página do Museu Nacional de Israel. Com a invenção da imprensa por Johannes zum Gutenberg, no século XV, o número de cópias disponíveis aumentou consideravelmente mas, para ter acesso a esses volumes, era necessário possuir uma biblioteca ou frequentar uma, fosse num convento, palácio ou universidade.

Nos nossos dias, uma ligação Internet e um computador, tablet ou celular transformam em biblioteca qualquer sítio. Os textos online são agora muitos milhões. Só o Projecto Gutenberg colocou online 39 mil e-books. A Internet permite também consultar catálogos mesmo antes de nos deslocarmos à biblioteca. É possível saber se um determinado texto existe na biblioteca do Congresso nos Estados Unidos, entre os 11 milhões de livros das numerosas bibliotecas da Universidade de Cambridge, ou na nossa Biblioteca Nacional.

Mas o que quer dizer tudo isto, para um arqueólogo ou para o apaixonado de Arqueologia? O fácil acesso é não só muito cómodo mas muito económico também. A grande dificuldade está, para mim, em encontrar o que desejamos no meio de tanta informação. No “Escavando Online” começamos agora uma série que pretende dar uma pequena ajuda a separar as diversas camadas de informação.

Um bom começo é ir consultar directamente publicações periódicas que normalmente não aparecem “desdobradas” ou com o conteúdo discriminado em tratamento analítico. Num catálogo bibliográfico aparece frequentemente o volume ou número da revista, mas não a lista dos artigos e textos publicados naquele particular volume.

Na Internet existem fundamentalmente três tipos de revistas sobre Arqueologia online.

 

1. Revistas disponíveis gratuitamente, ou seja, publicações de que foram digitalizados todos ou alguns volumes, e das quais é necessário fazer o download. As vantagens são que se tem acesso a uma cópia idêntica ao original, mesmo no aspecto físico. O problema principal é que, em muitos casos, esses ficheiros podem ser “pesados” e demorar a “descarregar”, sendo necessário um acesso rápido, o que, infelizmente, não é ainda o caso em todos os locais de Portugal. Normalmente, é possível ler online e, se se desejar, guardar no próprio computador. Neste último caso, o espaço e a capacidade de armazenar tudo isso passa a ser outro problema. Os discos rígidos de um, dois ou mesmo cinco terabytes são hoje comuns e não muito caros. Imprimir todos os artigos é, normalmente, não só muito dispendioso, como pouco ecológico; nesse caso é melhor comprar o original. É verdade que os números mais recentes nem sempre estão online, mas também são mais fáceis de encontrar à venda ou para consulta.

Neste grupo temos diversas revistas em Português, como O Arqueólogo Português, com acesso através do sítio web do Museu Nacional de Arqueologia, que tem online todos os artigos desde o número 1 da primeira série, editado em 1895, até ao número 21 da quarta série, publicado em 2003. A Sociedade Martins Sarmento colocou online o conteúdo de todos os volumes da Revista de Guimarães publicados entre 1884 e 2000. Todos os números da antiga revista Portugália - revista de cultura, tradição e renovação nacional, assim como os números da nova Portugália, publicada pela Faculdade de Letras do Porto de 1980-2011, podem também ser consultados e descarregados. Na Internet, estão também disponíveis os números da revista da Unidade de Arqueologia da Universidade de Minho, Tauaum - Memórias, bem como da mais recente revista ERA Arqueologia, publicada pela empresa do mesmo nome. Infelizmente, depois de ter estado durante alguns anos disponível, a Revista Portuguesa de Arqueologia (ex-IPA / Igespar) deixou de o estar. Os índices e a indicação de ficheiros em formato PDF ainda lá estão, mas os links estão quebrados, pelo menos para o grande público. Talvez uma intervenção da comunidade arqueológica pudesse demonstrar à tutela a utilidade de tal acesso, não só para a promoção do trabalho desenvolvido pelos arqueólogos portugueses ou em Portugal, mas também do próprio País. A Revista de Arqueologia e História, publicada pela Associação dos Arqueólogos Portugueses, tem infelizmente só o número 56-57 online em PDF. Algumas revistas, como a nossa Al-Madan, a Conimbriga ou a Arqueologia Medieval, têm consultáveis Internet os índices dos volumes publicados, que podem ser também bastante úteis, mas seria ideal ter os números mais antigos e em muitos casos esgotados.

A Al-Madan é um caso particular, pois disponibiliza também, desde 2005, uma revista electrónica complementar da edição impressa, a Al-Madan Online / Adenda Electrónica, com acesso pelo site da revista ou directamente na plataforma ISSUU.

Da Europa e no resto do Mundo as revistas de Arqueologia disponíveis na Internet são mesmo centenas. Da Acta Archaeologica, publicada na Hungria, às revistas da South African Archaeological Society, The Digging Stick ou South African Archaeological Bulletin, existe um pouco de tudo e de todos os temas e aspectos da Arqueologia e ciências afins. Da vizinha Espanha, salientamos publicações interessantes como Archivo Español de Arqueología, Complutum, Trabajos de Prehistoria ou Zephyrus, todas disponíveis em versão integral e gratuita. A melhor maneira de ter uma ideia das revista presentes na Internet é consultar sites como o da Fundación Dialnet e ver a secção “revistas”, ou o blogue AWOL - the Ancient World online, verdadeiramente extraordinário e com referências a 1108 revistas sobre a Antiguidade e a Pré-História. Nem todas as publicações referidas nestas listas têm, porém, todos os artigos ou todos os números disponíveis para serem lidos ou descarregados, mas servem para dar muitas horas do prazer da leitura.

 

2. Revistas disponíveis na Internet mas de acesso restrito, ou seja, publicações digitalizadas, como as anteriores, mas que só estão disponíveis através de pagamento, de convenções ou outras formas. Nesta categoria estão muitas das revistas mais conhecidas e famosas como, por exemplo, a Science ou a Nature. Muitas têm acesso com preços especiais só para a visão online. Por vezes, algumas dessas revistas permitem aos assinantes actuais o acesso a todos os números anteriores, mas é importante recordar que, para o público em geral, têm também artigos ou mesmo números free ou de prova, que podem ser descarregados livremente. Tal é caso da Antiquity, da Archaeology e da L’Anthropologie. Os textos grátis não são sempre os mesmos, pelo que vale a pena visitar os sites dessas revistas periodicamente. Estudantes, docentes e investigadores têm a sorte de ter acesso a muitas publicações através de acordos, como é o caso, em Portugal, da B-on. Sites como Jstor, Elsevier ou Biab dão acesso a muitas das revistas, mas é necessário pertencer a entidades como, por exemplo, uma universidade para ter acesso à maioria dos conteúdos. Ou, claro, pagar. O custo de um artigo interessante pode ser exorbitante. Por isso, aconselho sem receio que se consultem os índices dessas revistas até encontrar o desejado, e que depois se procure alguém conhecido que possa fazer o download gratuito. Na verdade, a exploração económica dos autores, que na verdade renunciam normalmente aos seus direitos, ou seja, não recebem absolutamente nada por parte das editoras que acabam por vender a peso de ouro o produto do trabalho de outros, está já a ser contestada por muitos. Assim, a Universidade de Harvard já aconselha os seus docentes e investigadores a publicar em revistas de open access. Penso que, se todos nós dermos uma mão, a situação vai mudar e em breve as editoras vão entender, como aconteceu com a música, que será bem mais rentável vender a preço módico muitas cópias. Até agora, sabiam que podiam vender a muitas bibliotecas das grandes universidades. Mas, com o acesso a tornar-se cada vez mais fácil e em todas as partes do mundo, os clientes podem ser muito mais se o preço for justo e os autores receberem o que lhes é devido. A revolução já começou. Veja-se, por exemplo, o Journal of Open Archaeology Data.

 

3. Revistas que nasceram já na Internet ou que foram criadas de forma a ter acesso exclusivo por esta via. Têm frequentemente melhor qualidade gráfica, mas são muitas vezes mais difíceis para fazer download, ou tal é mesmo impossível. A Internet Archaeology, hospedada pela Universidade de York e publicada pelo Council for British Archaeology, intitula-se o primeiro e-journal de Arqueologia. Entre as primeiras, encontra-se a Tracce online, um boletim sobre arte rupestre publicado pela Cooperativa Archeologica “Le Orme dell'Uomo”, que apareceu em 1996 e recentemente foi totalmente renovado. Também entre as pioneiras está a Arqueoweb, que já vai no número 13. Actualmente, são numerosas as revistas sobre os mais variados temas relacionados com a Arqueologia online, nas diversas línguas publicadas electronicamente. Em Português, podemos salientar a Praxis Archaeologica, editada pela Associação Profissional de Arqueólogos, e a brasileira Arqueologia Digital. Em espanhol, temos a @rqueología y Territorio mas, tal como no papel, as revistas na Internet continuam a ser escritas maioritariamente em inglês. É o caso de títulos como Arqueología Publica, Assemblage, Love Archaeology Magazine ou Popular Archaeology. Algumas, como a Past Horizons - adventures in archaeology, incluem, para além de artigos, podcast e até PhdTV vídeos. Um site onde é possível procurar links dessas revistas é o Open access Archaeology, na secção “journals”.

 

O acesso à Internet, agora possível para muitos a todas as horas e em muitos lugares, ainda não é universal. Não é necessário ir para remotas zonas de Angola ou trabalhar no nordeste do Brasil para ter consciência disso. Devemos recordar que, mesmo em Portugal, muitas zonas ainda têm acesso deficiente, por vezes demasiado lento e ainda muito caro. Mas, sem dúvida, o panorama está a mudar. Talvez não seja ainda possível a todos ter um jardim e uma biblioteca, como desejava Cicero, mas, pelo menos, podem ter acesso a muitas bibliotecas num jardim.

 

Boas escavações!

 

Mila Simões de Abreu (msabreu@utad.pt)

 

PS. Todas as moradas estavam activas em 2 de Julho de 2012

 

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