Ao Serviço da Arqueologia em Terras de Sua Majestade
por Mila Simões de Abreu [versão integral de texto publicado na rubrica "Escavando Online", in Al-Madan, IIª Série, n.º 16: 174-175]
"The secret of getting ahead is getting started"
Agatha Christie [15-09-1890 / 12-01-1976]
Sabemos que no Reino Unido o Património é visto não só como algo para ser preservado mas também apreciado e usufruído por todos. E essa responsabilidade não cai só nas mãos do Governo ou do Estado. Associações como as poderosíssimas National Trust ou National Trust for Scotland, que diz-se terem mais de dois milhões de membros, levam isso muito a sério. O NT, por exemplo, é o dono de mais 500 “propriedades” com valor histórico e natural, entre as quais se contam a “paisagem” à volta de Stonehenge e o magnífico círculo megalítico de Avebury. Até a English Heritage, apesar de governamental, encoraja os membros do público a tornarem-se seus sócios e, por 41,50 libras, ajudarem a salvaguardar o Património, podendo em contrapartida visitar mais de 400 sítios gratuitamente.
E na Arqueologia? O interesse é tão grande em terras de Sua Majestade que uma simples pesquisa no Google de archaeology+UK [9] dá como resultado mais de 300 000 sites! Na verdade, para citar só os mais interessantes eu teria de usar todas as páginas desta Al-Madan... e portanto, fica desde já o convite para que usem os sites apresentados apenas como o início da “escavação”.
A atenção dedicada à Arqueologia é demonstrada, por exemplo, pelo facto de na televisão britânica não passarem só documentários sobre Arqueologia mas, desde 1998, existir um programa semanal, o Time Team, que não é sobre Arqueologia, mas sim as próprias escavações arqueológicas, apresentado por Tony Robinson, o “Baldrick” da fantástica série cómica Blackadder.
A paixão pela Arqueologia começa de pequenino e o YAC - Young Archaeologists’ Club é uma associação dedicada a crianças e jovens, dos 8 aos 16 anos. Tem milhares de membros, distribuídos por 70 secções espalhadas por todo o país.
Diz-se que os arqueólogos “amadores” são 30 000 no Reino Unido (a propósito disso, vejam adiante “o melhor site”). Não existe uma maneira de confirmar esse número, mas a verdade é que as dezenas de associações dedicadas à Arqueologia sugerem isto. Por outro lado, de acordo com o UCAS - Universities & Colleges Admissions Service, o sistema de apoio ao acesso à Universidade, existem 99 cursos de “Arqueologia” de 1º ciclo e 457 licenciaturas combinando Arqueologia com outra matéria, leccionadas em 29 universidades. É necessário dizer que aqui não se incluem, por exemplo, as universidades de Cambridge e Oxford, que têm sistemas próprios.
O número de profissionais da Arqueologia é igualmente difícil de conhecer, mas é com certeza na ordem das dezenas de milhares. Só o muito conhecido IFA - Institute for Archaeologist diz ter 2700 membros “profissionais”. Existem ainda associações como a ALGAO - Association of Local Government Archaeological Officers UK, e até sindicatos como o Prospect têm secções dedicados aos arqueólogos. Talvez do outro lado da barricada, mas igualmente muito importantes, estarão os membros da FAME - Federation of Archaeological Managers & Employers.
Para ter uma ideia da profissão, aconselho visita à parte dedicada ao Reino Unido na página do projecto Discovering the Archaeologists of Europe. Os interessados poderão fazer o download do relatório Archaeology Labour Market Intelligence: Profiling the Profession 2007-08.
Não nos deve surpreender, portanto, que o próprio Parlamento (nas suas duas câmaras: comum e dos lordes) tenha um grupo em que estão representados todos partidos, dedicado aos assuntos relacionados com a Arqueologia (All Party Parliamentary Archaeology Group), dirigido pelo famoso arqueólogo da Universidade de Cambridge, Lorde Colin Renfrew.
A melhor maneira de conhecer o que se passa na Arqueologia no Reino Unido é, porém, começar pela homepage do CBA - Council for British Archaeology. O CBA é uma organização educacional sem fins lucrativos com mais de 60 anos, que tem por lema promover a “Arqueologia para todos” (Archaeology for all). No que diz respeito à Escócia, País de Gales e Ilha de Man, são úteis os sites do Council for Scottish Archaeology, The Welsh Archaeological Trusts e Manx National Heritage, respectivamente.
Provavelmente o sítio que melhor nos dá a conhecer o que existe na Web no que diz respeito à Arqueologia no Reino Unido é o portal ADS - Archaeology Data Service, criado e mantido pelo Departamento de Arqueologia da Universidade de York, com o apoio do AHRC - Arts and Humanities Research Council. As suas inúmeras secções incluem o ArchSearch, catálogo de 1 034 681 sítios e monumentos arqueológicos; o ALSF - Aggregates Levy Sustainability Fund; a lista dos projectos arqueológicos OASIS: Online AccesS to the Index of archaeological investigationS; VENUS - Virtual ExploratioN of Underwater Sites e, principalmente para mim, o Archaeology Image Bank. O portal aponta para sites que vão para além do Reino Unido, entre os quais vale a pena salientar o ARENA - Archaeological Records of Europe, com o Networked Access, e o Ave Valley Survey Project, Porto, Portugal.
Um pouco complicado de usar é o Online Archaeology e, para quem procura este tipo de informação, vale a pena visitar o Archaeology UK, a “casa” do Archi, o índex dos sítios arqueológicos, assim como as páginas generalistas da BBC (Archaeology), do British Museum, do Museum of London Archaeology e dos projectos Past Scale e FromDotDomesday.
Muitas das sociedades e associações inglesas, escocesas e galesas, também têm online páginas que apresentam não só o seu trabalho, mas também diversos aspectos da Arqueologia e das estações arqueológicas britânicas. Tal é o caso de históricas como a British Archaeological Association, fundada em 1843, ou a Prehistoric Society, que existe com este nome desde 1935, e outras mais recentes e não tão conhecidas como a AGES - Archaeological & Historical Association, a Association for Roman Archaeology, a Nautical Archaeology Society e The Association for Industrial Archaeology. Outros sites são dedicados a associações de âmbito mais geográfico, como a Cambrian Archaeological Association ou a Dorset Natural History and Archaeological Society. Para saber mais visitem a lista desse tipo de sociedades compilada pelo CBA. A verdade é que no Reino Unido existem associações dedicadas aos mais variados aspectos da Arqueologia, como a AAI&S - Association of Archaeological Illustrators and Surveyors, a Association for Environmental Archaeology, e até o British Aviation Archaeological Council, para a Arqueologia da aviação.
Existem depois sites de grupos de interesse ligados à Arqueologia experimental relacionada com a reconstrução de casas, como o Lothene, o Butser Ancient Farm ou o Scottish Crannog Centre; ao talhe de sílex – Flint Knapping, Beyond 2000bc e Neolithisc; a cerâmica - The Prehistoric Ceramics Research Group, Beaker Culture, The Ceramic Petrology e Medieval Pottery Research Group; ao trabalho dos metais - Bronze Age Craft, etc.
A troca de ideias tem nas listas e nos fóruns especial relevância. Entre as mailing lists mais populares estão as dedicadas à Arqueologia Britânica (British Archaeology), à Arqueologia Comunitária (CBA’s Community Archaeology), à Arqueobotânica (Archaeobotany), aos estudos neolíticos (Neolithic-studies), aos Sistemas de Informação Geográfica e à Arqueologia experimental. Uma lista das “listas” pode ser consultada no site do CBA. No que diz respeito aos fóruns, comecem pelo TAF - The Archaeology Forum.
Entre os sites dedicados às mais importantes estações arqueológicos destacamos Boxgrove, Creswell Crags, Flag Fen, The Dover Bronze Age Boat, Orkney, Stonehenge, a Muralha de Adriano, os banhos romanos de Bath e o Jorvik Viking Centre. Informação sobre muitos outros monumentos megalíticos pode ser encontrada visitando páginas como o Megalithic Portal e Stone Circle Webring. Nos últimos anos, lugares como o Archaeolink Prehistory Park atraem também muitos turistas.
No que diz respeito a publicações, principalmente revistas, para além das famosas Antiquity ou Current Archaeology, existem dezenas delas. Uma lista com mais de 2000 títulos pode ser consultada no site Archway.
Nestes tempos de crise mundial, a situação no que diz respeito a trabalho em Arqueologia no Reino Unido também não é muito boa, mas quem estiver interessado pode visitar o site BAJR - British Archaeological Jobs & Resources e, para trabalho voluntário ou formação, consultem Grampus Heritage and Training Ltd, Kent Archaeological Field School, Archaeology Expert, National Trust Volunteers for Archaeology, Past Horizons e, principalmente, Archaeology Abroad, que inclui também informação acerca de muitas outras zonas do mundo.
O melhor site
Para terminar, como sempre, não posso deixar escolher o melhor site. Desta vez não o faço pelo grafismo nem apenas pelo conteúdo, mas antes pelo que representa. No Reino Unido, todos os que encontram artefactos arqueológicos casualmente ou usando detectores de metais -- veja-se a propósito disso o site do National Council for Metal Detecting -- são encorajados a participar o achado no âmbito do The Portable Antiquities Scheme. O objecto ou artefacto é catalogado e referenciado e devolvido ao seu “descobridor”. Se tiver importância e valor considerável, abre-se então um processo que tem conta a sua descoberta, a propriedade do local onde foi encontrado e outros factores. O site não só referencia as mais recentes descobertas como aconselha sobre os procedimentos em caso de descoberta. No primeiro ano de funcionamento do esquema foram catalogados 13 500 objectos e desde então centenas e centenas de peças de todas as épocas são assim inventariadas anualmente. Ganham todos: para a Ciência o achado não se perde numa qualquer gaveta ou colecção menos idónea; para o público fica o prazer de contribuir com mais uma peça para o puzzle do passado.
Bom trabalho e boas “escavações” na Net.
Mila
Simões de Abreu (msabreu@utad.pt)
PS. Todas as moradas estavam activas em 5 de Abril de 2009