O "Achamento" do Brasil
por Mila Simões de Abreu [versão integral de texto publicado na rubrica "Escavando Online", in Al-Madan, IIª Série, n.º 13: 159-160]
"[…] E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo. […] Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500."
Como muitos outros Portugueses “achei” o Brasil no ano 2000. Deste então não me canso de admirar tão soberba terra e tão excelentes gentes, como diria Pêro Vaz de Caminha.
O nosso país irmão, é sabido, tem muito para nos dar mas seguramente o seu passado a.C. (antes de Cabral) e os estudos arqueológicos até agora desenvolvidos, estão entre os aspectos mais entusiasmantes.
Para iniciar a nossa “escavação”, sugiro uma visita ao site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O Ipahn, criado no longínquo ano de 1937, ocupa-se de um “universo diversificado de bens culturais” [sic], ou seja, não só dos bens imóveis e móveis mas também, justamente, do Património imaterial. A página permite ter acesso aos bens “tombados”, que não quer dizer destruídos, como aparentemente a palavra sugere, mas sim “classificados”. Através do Sistema de Gerenciamento de Patrimônio Arqueológico, é possível consultar as fichas dos sítios arqueológicos brasileiros “cadastrados”. Em 1998 existiam 12 517 sítios arqueológicos em todo o território brasileiro. O colega Rossano Lopes Bastos, um dos poucos arqueólogos do Iphan, escreveu: “Durante a década de 80, o maior depredador era o próprio Estado, fazendo rodovias e hidroelétricas sem qualquer levantamento arqueológico”. Isso mudou muitos nos últimos anos. Hoje, não só se conhece melhor o território, como o número de sítios conhecidos deve estar próximo dos 20 mil. Consultar a lista dos sítios, por nome, ou mesmo por localidade, pode ser complicado. Melhor é, para nós portugueses, usar o mapa e procurar no banco de dados por Estado.
Exactamente porque a maioria de nós não está por dentro da Arqueologia brasileira, o melhor mesmo é começar por sites gerais, como, por exemplo, o premiado Arqueologia Brasileira, feito por Erika Marion Robrahn-González e Paulo Zanettini. Tem informações de carácter geral, cronologicamente desde há 50 000 AP até ao presente (na Linha do Tempo). Mas a página também tem outros assuntos, como os conselhos úteis do que ver ou ler (em Serviços). Outro bom site de introdução, com muitos artigos sobre diversos temas ligados à investigação arqueológica, é o Comciência - arqueologia. A não perder as reportagens escritas pelos maiores arqueólogos brasileiros, como “Arqueologia da Região do Parque Nacional Serra da Capivara - Sudeste do Piauí”, por Niéde Guidon, “Os Primeiros Povoadores do Cerrado”, de Pedro Ignácio Schmitz, ou “A Colonização da América do Sul”, por Renato Kipnis. Aliás, para quem tenha interesse em conhecer a história da pesquisa arqueológica em terras brasileiras, pode, nesse mesmo site, ler o texto “Paradigmas que Persistem: as origens da arqueologia no Brasil”, de Lucas de Melo Reis Bueno e Juliana Salles Machado. Sobre esse mesmo assunto, tem interesse o relato biográfico do Padre Schmitz, “Fazendo Arqueologia Brasil Afora”. Sempre como introdução geral ao tema, consultem as páginas Arqueologia no Brasil, Arqueologia Brasileira, ou os mais didácticos Pré-história e Portal da Pré-história, que inclui uma parte para crianças. Munidos dessa informação básica, é possível começar a explorar com maior sucesso alguns dos temas mais quentes da Arqueologia brasileira.
Luzia e os primeiros habitantes do Brasil
O esqueleto de uma jovem de 20 anos e pouco mais de 1,50 metros de altura é, para muitos, o antepassado mais antigo dos “brasileiros”. Com o “sobrenome” de Luzia, em homenagem à longínqua “prima” africana Lucy, ela viveu cerca de 11 500 anos antes do presente e possuía características negróides. Para saber mais sobre a sua descoberta e, principalmente, a sua origem, visitem algumas das numerosas páginas que lhe são dedicadas. Das muito completas, como Expo Luzia ou Luzia e as Grutas de Lagoa Santa, às mais divulgativas, como Luzia - A Primeira Brasileira ou, até, o texto inglês The Lagoa Santa (or “Luzia”) Group (Minas Gerais, Brasil). As descobertas feitas em Lagoa Santa podem também ser seguidas nos sites Parente Luzia e De Volta a Lagoa. Sobre o primeiro “arqueólogo” que estudou Lagoa Santa, Peter Lund, veja-se Um Botânico em Lagoa Santa.
Ainda relativamente à primeira ocupação da América, é de não esquecer o sítio de Pedra Pintada, escavado pela equipa da americana Anna Roosevelt. Comece-se por visitar O Povo da Pedra Pintada e depois veja-se, para considerações mais em geral sobre a primeira ocupação da América do Sul, os Peopling of South America e Dating a Paleoindian Site in the Amazon in Comparison with Clovis Cuture.
Os Sambaquis
Outro dos temas mais interessantes da Arqueologia brasileira são os famosos Sambaquis - da palavra de origem Tupi “tambá” (concha) e “ki” (depósito) -, elevações mais ou menos arredondadas, por vezes de altura considerável, constituídas basicamente por restos de conchas e de outros animais. Foram utilizadas como local de habitação e de sepultura desde pelo menos há 6500 anos AP. Na Internet, é possível visitar numerosos sítios relacionados com os sambaquis. Dos mais simples e generalistas, como os Sambaquis, Pirâmides Brasileiras e Sambaquis - Sitíos Arqueológicos, àqueles com informações mais detalhadas, mas sempre em sentido lato, como Sambaquieiros, os Primeiros Habitantes do Litoral Brasileiro, A Ciência e a Presença Humana no Litoral e Radiográfica em População Pré-Histórica Brasileira. Existem também sites mais monográficos, como Sambaquis de Maricá, Sambaqui da Ilha de São Chico, Sambaquis de Saquarema, Cubatão: montes de conchas contam a pré-história e Ilha do Sambaqui Casqueiro. Para uma visão de conjunto, veja-se Distribuição Espacial de Sambaquis em Joinville-SC: exercício geoestatístico preliminar sobre a variação morfométrica dos sítios, e para conhecer alguns dos objectos (principalmente em pedra) e outros achados encontrados, visitem-se sítios de museus, como o do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville, do Museu do Homem do Sambaqui “Padre João Alfredo Rohr”, S. J., da Exposição Sobre os Primeiros Habitantes de Cabo Frio - O Homem do Sambaqui. Por curiosidade, não deixem de dar uma vista de olhos pelos sites Nota Sobre a Ocorrência de Sambaquis Históricos e de Contatos Interétnico no Litoral de Pernambuco e Os Sambaquis Submersos de Cananéia, SP. Um estudo de caso de arqueologia subaquática, tese por Flávio Rizzi Calippo. Embora a grande época de destruição dos Sambaquis, quando as conchas eram usadas para fazer cal, já tenha passado, eles continuam ameaçados, principalmente pela ignorância da sua existência e pela degradação natural, como se pode ler na notícia A Destruição de Sambaquis.
Muita da investigação arqueológica no Brasil está associada aos museus, principalmente a museus pertencentes a universidades, como é o caso do magnífico Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Sites indispensáveis são também os do Museu Nacional - Rio de Janeiro, Museu da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Parense Emílio Goeldi, Museu Antropológico de Góias e Museu Histórico Nacional. Sobre o estado dos museus no Brasil pode ler-se o texto Museus de Arqueologia Passam por Renovação.
As Cerâmicas
Um dos vestígios do passado em terras brasileiras com mais interesse são, sem dúvida, as magnificas cerâmicas de uso quotidiano, ritual e até funerário. Os diversos tipos, culturas e estilos, apresentam grande qualidade técnica e estética. Para uma introdução breve, pode começar-se com uma visita ao site Arte Milenar. Para a chamada “cerâmica Marajoara”, vejam-se a home-page do Museu de Marajó, a página Cerâmica Marajoara e a Norte: Cerâmica Marajoara. Para uma visão mais científica, não percam o artigo online Iconografia Marajoara: uma abordagem estrutural, daquela que é talvez a maior especialista nesta matéria, Denise Pahl Schaan.
Para “cerâmica de Tapajó” consultem-se, por exemplo, duas pequenas introduções nos sites Cerâmica Tapajônica e Norte: cerâmica Tapajônica, continuando a pesquisa de outras informações e, principalmente, de imagens, nos sites dos Museus anteriormente mencionados. O mesmo, aliás, se passa com a cerâmica Maracá, para a qual convém ver a introdução e passar para visualização de peças nas diversas colecções.
A Arte Rupestre
A arte rupestre tem hoje um papel muito importante nos estudos arqueológicos no Brasil. Um pouco pela enorme quantidade de sítios, que existem praticamente em todo o território e em todos os tipos de paisagem, mas sem dúvida também em grande parte por causa do magnífico trabalho desenvolvido pela extraordinária investigadora que é Niede Guidon. Todos os que visitam o Parque Nacional da Serra da Capivara não podem deixam de vir conquistados pela beleza da arte e pelo notável trabalho desenvolvido. A sua Fumdham - Fundação Museu do Homem Americano, tanto no aspecto de pesquisa como no aspecto social, é um exemplo a nível mundial. O Parque Nacional da Serra da Capivara foi classificado pela Unesco como Património Mundial em 1991. Encontram-se sobre ele muitas referências na Internet mas, para mim, as melhores informações são em inglês, no site feito pelo colega americano Dito Morales. Dito, não só dá conselhos úteis para a visita, em Information for Visitors, como tem online numerosas fotografias sobre a espectacular Pedra Furada. Para além disso, para os mais interessados, ele ainda tornou acessível a sua tese de doutoramento, com o titulo The Nordeste Tradition: innovation and continuity in Brazilian rock art, e até o seu diário - 2001 Brasil Journal.
Para “conhecer” outras estações, principalmente com gravuras e nas zonas do Sul do país, consulte-se a bem documentada página de Arte rupestre - Keler Lucas, incluindo notícias no seu Informativo. O Brasil tem realmente tudo que é bom: até existem praias com arte rupestre! Veja-se, no boletim online Tracce, o artigo sobre as gravuras na ilha de Santa Catarina. Para ter uma ideia de outras gravuras e pinturas, visitem-se os sites Itaquatiaras Ingá; sobre a famosa pedra decorada na Paraiba, o Primeiros Brasileiros Pintaram em Goiás; sobre as magníficas pinturas de Serranópolis, Os Registos Rupestres no Estado do Maranhão. Sem texto, mas com bonitas imagens, são as páginas Imagens da Pré-história no Brasil e Brasil Pré-histórico - galerias, do O Globo.
Outras páginas
É necessário recordar que uma grande parte dos trabalhos arqueológicos no Brasil é, de facto, de âmbito histórico. Essas investigações têm tido notável importância para a reconstrução da ocupação do território em épocas mais recentes. Para um resumo do estado da questão, veja-se o artigo Arqueologia Histórica. Os avanços da arqueologia histórica no Brasil, um balanço.
Sobre a Arqueologia brasileira existem ainda na Web duas revistas online. Ambas parecem em estado de hibernação, sem actualizações recentes, mas aqui vão as referências: Arqueologia Conexão revista online (criada em 1996) e Rvab - Revista Virtual de Arqueologia Brasileira.
O melhor
De tudo o que é possível encontrar online, talvez as páginas que tenham maior interessante sejam aquelas que, não tendo grande grafismo, possuem informações e pistas interessantes, como as do Instituto Anchietano de Pesquisas / Unisinos, do Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas e do Laboratório de Arqueologia. Com uma temática que vai para além da Arqueologia, mas com interesse, são ainda os sites Historia e e-historia, Terra Brasileira - Brasil Folclórico e Brasil Indígena e a home-page da Aba - Associação Brasileira de Antropologia.
Uma das melhores páginas é sem dúvida a da Sab - a Sociedade de Arqueologia Brasileira, onde, para além de informações gerais sobre a associação e a profissão de arqueólogo, é possível ter conhecimento dos congressos e reuniões científicas no Brasil e não só. A página tem um Fórum, ainda que não muito activo, o mesmo acontecendo aliás com a lista Arcox - o ponto de encontro da Arqueologia brasileira.
Para acabar este “Escavando…”, não quero deixar de falar da presença da Arqueologia na Net em Portugal. Em Março último realizou-se em Tomar o CAA (Congresso Internacional Computer Applications in Archaeology), um sucesso para a organização, com a presença de muitos investigadores de vários países. Portugal, porém, teve uma participação mínima e, no que diz à Net, inexistente. Foi pena, pois temos feitos grandes progressos e nos últimos anos têm sido criados sites com qualidade, quer gráfica quer de conteúdos, como é o caso do Arqueobeira ou do Arqueoblogo. Só espero que em 2006, aquando do XV Congresso da Uispp, em Lisboa, seja possível apresentar ainda mais e melhor.
Não posso terminar sem deixar recordar-vos que a Al-Madan tem, graças mais uma vez ao esforço do seu Director, Jorge Raposo, o seu próprio site, que vale a pena ser visitado. Quanto à versão do “Escavando”, depois de anos de problemas, parece agora estar finalmente online.
Como sempre, fico à espera dos vossos comentários e sugestões.
Boas
escavações na net!
Mila
Simões de Abreu (msabreu@utad.pt)
PS. Todas as moradas estavam activas em 15 de Abril de 2005