Arqueologia, Ordenamento do Território e Ambiente
por Mila Simões de Abreu [versão integral de texto publicado na rúbrica "Escavando Online", in Al-Madan, IIª Série, n.º 12: 218-219]
“There
are three kinds of lies: lies, damned lies, and statistics."
(segundo
Mark Twain, mas atribuída também a Bernard Shaw)
Lembro-me
sempre desta famosa frase quando falo de estatísticas que, na verdade, podem não
ser mais do que mentiras bem documentadas. Contudo, para demonstrar a evolução
da Internet nos últimos anos, as estatísticas são sem dúvida muito
interessantes.
Em
1998, uma procura da palavra archaeology, feita através de um dos
motores de busca disponíveis, dava já resultados na ordem das centenas
de milhar de páginas. Hoje, um inquérito semelhante feito em sites de
procura globais como, por exemplo, o alltheweb
ou mysearch,
dá uma cifra próximo de dois milhões de páginas!
Quanto
escrevi o primeiro “Escavando…”, em 1998, já sabia que a Internet se
transformaria num instrumento indispensável para os arqueólogos. As vantagens
eram conhecidas, embora nenhum de nós tivesse a noção da importância que as
comunicações através da rede assumiriam. Com estas palavras, coloco-me sem
hesitar entre os que pensam que essas vantagens pesam muito mais na balança do
que qualquer uso pouco sério da rede, não-ético ou claramente fraudulento e
criminoso.
Mas
voltando às estatísticas, em cinco anos dei no Escavando indicações
sobre cerca 350 sites ou páginas – 70% ainda estão online, 7% mudaram
de morada e perdemos o acesso a 23%, o que quer dizer que, fundamentalmente, os
conteúdos, mesmo quando não são actualizados, permanecem disponíveis no
ciberespaço. Isso leva-me a concluir que a informação nem sempre é tão
provisória como se pensava e, mais uma vez, a repetir que nem tudo o que está
na web é relevante, bom, ou mesmo verdadeiro. Dos sites citados
ao longo destes anos só uma pequena minoria era em português. Na verdade, sites
em português encontrados com a palavra-chave “arqueologia” são ainda
“apenas” 33 690!
Durante
estes anos, porém, a produção nacional aumentou em número e, principalmente,
em qualidade. Não esquecemos que o site de um museu português, o do Museu
Nacional de Arqueologia, ganhou merecidamente
um prémio internacional para a melhor página desse tipo.
Apesar
dessa enorme quantidade disponível, uma rápida pesquisa na net
levam-nos a constatar que não são muitas as informações sobre Ordenamento do
Território e Arqueologia, o tema desenvolvido nesta edição da Al-Madan.
Começo, portanto, por aconselhar uma óbvia visita à página do GEOTA,
que colabora nesta iniciativa e é uma das poucas organizações verdadeiramente
activas nesse campo. É também boa ideia navegar em páginas oficiais como, por
exemplo, a da Direcção Geral
do Ordenamento do Território e Desenvolvimento Urbano.
Nela é possível visualizar informação sobre os Planos
Directores Municipais de cerca 70 concelhos – de Alfândega da Fé à
Vidigueira, ou recolher dados de outros instrumentos
de gestão territorial. Quem usa
habitualmente um Macintosh pode encontrar problemas em visualizar alguns dos
conteúdos. Nesse caso, é talvez necessário fazer primeiro alguns downloads
ou optar pelo uso de uma versão recente do Vitural PC.
Sempre
tendo em mente a legislação nacional, visite-se a página do ainda Instituto
Geológico e Mineiro, onde se encontram também
informações sobre estudos e projectos, ou ainda o site dos “Amigos
do Uíma”, com
referências a idêntica temática. O
mesmo se passa com a página do Instituto
da Conservação da Natureza, do Instituto
Geográfico Português, ou até da “nossa” Associação
Profissional de Arqueólogos (APA), que tem uma secção sobre Bases da
Política de Ordenamento do Território e Urbanismo e onde pode ser ainda
lido o documento “Algumas
linhas estruturantes da Arqueologia Portuguesa” (para download ou
visualização em html).
Informações
gerais mas importantes para o estudo do território podem ser consultadas no já
diversas vezes citado GEOCID.
Dos últimos sismos às fotos de satélite, tudo pode ser interessante. Até se
encontra uma secção relacionada com Arqueologia
e Património.
O
chamado BEOT (Bases
para um esquema de Ordenamento do Território à escala do Continente), projecto
de investigação que visa fundamentalmente inventariar e estruturar informação
geográfica relativa a diversos domínios sectoriais, tem também a sua página online,
sendo particularmente interessantes as referências
bibliográficas.
Do
ponto de vista mais restrito da investigação sobre o assunto, vejam-se os
trabalhos do “Grupo de Ordenamento do
Território” da Universidade Nova de Lisboa, e
textos sobre o novo ordenamento do território, como o de Jorge Gaspar, do Centro
de Estudos Geográficos. Estão também
disponíveis na web as intervenções feitas na Conferência
“Ordenamento do
Território e Revisão dos PDM” (Figueira da Foz, Julho 2003).
Neste
campo do Ordenamento do Território, como em muitos outros, é importante
consultar também a documentação europeia. Um site interessante é o do
Forum
MedRegio, sobre “Políticas da União Europeia e Ordenamento do Território”.
O portal Landscape
Planning, apesar de dedicado principalmente
ao Reino Unido, não deixa de ser valioso para se compreender um pouco da
realidade fora de Portugal.
A
nível nacional é possível consultar informação mais especifica, como a lei
orgânica do ainda IPPAR
ou outra legislação relevante para o enquadramento de algumas questões.
Consultem-se, por exemplo, os sites do Instituto
Português de Arqueologia ou da DIRAMB,
com a “Convenção
Europeia para a Protecção do Património Arqueológico”.
Diversos
sites podem ser excelentes pontos de partida para estudos sobre as relações
entre o Ordenamento do Território e a Arqueologia. Boas pistas de investigação
são dadas na homepage da Association
for Environmental Archaeology.
Salientamos, entre outras, a parte dedicada ao The
Journal of Human Palaeoecology, às
ligações
interessantes, às imagens
e, principalmente, à bibliografia.
Sempre sobre bibliografia relacionada com a Arqueologia da paisagem e Ambiente,
consulte-se a secção
compilada por James Greig.
A
Political Ecology
Society disponibiliza informações interessantes para antropólogos e
arqueólogos que se interessem por Ecologia, Ambiente e ambientalismo,
o mesmo acontecendo no site oficial do Institute
of Field Archaeologist.
Entre
os departamentos universitários com especial vocação para as relações com o
meio ambiente, citamos, a título de exemplo, a Environmental
Archaeology Unit, do Departamento de Biologia da Universidade de York,
e o Departamento
de Arqueologia e História Natural da Universidade Nacional da Austrália.
Estudos
de aspectos particulares da paisagem e do Ambiente podem ser consultados em sites
como o do Atlas da Paleo-vegetação,
um dos meus favoritos, ou dedicados ao Paleo-clima.
Alguns
dos artigos publicados na revista Vegetation
History and Archaeobotany podem ser consultados online embora,
como muitas vezes acontece, só assinantes consigam ter acesso aos textos
completos.
Sobre
paleo-vegetação
e paleo-botânica,
existem diversos sites com grande qualidade, dos quais destacamos a página
dos Royal
Botanic Gardens de
Kew (Londres), com muitas informações
sobre aspectos tão diferentes como plantações, dieta e até lixo. Embora
sobre áreas geográficas específicas, vale a pena consultar o banco de dados
de arqueo-botânica
das Ilhas Britânicas, a página compilada por Naomi F. Miller sobre o Médio
Oriente, o site do projecto Landscape
sobre a antiga Mesopotâmia e a homepage sobre o início
da agricultura, de George Willcox. Sobre arqueo-botânica,
existem ainda páginas de instituições universitárias como o LPL, da Universidade
“La Sapienza” (Roma), ou o Institut
für prähistorische und naturwissenschaftliche Archäologie.
Embora com pequenos problemas na pesquisa, é possível navegar no banco
global de dados de pólen organizado por Eric
Grimm.
Para
a arqueo-zoologia,
a melhor página deve ser aquela mantida por Frank J. Dirrigl Jr. e Barry W.
Baker, da Teikyo Post University
(Connecticut, EUA).
Os sites do International
Council for Archaeozoology e da Associazione
Italiana di ArcheoZoologia têm igualmente muitas informações. Online,
é possível consultar os artigos da revista espanhola Archeofauma.
Na
Internet, encontramos também sites dedicados a projectos como o da Butser
Farm, a famosa quinta experimental criada pelo falecido P. J. Reynolds,
que tanto deu que falar nos anos 1970-80.
A
provar que é possível encontrar de quase tudo na web, visitem a melhor
página sobre o estudo de
excrementos, ou aquela sobre escaravelhos
e datações.
O
estudo do território, no que respeita à geologia e, em especial, ao Quaternário,
tem também grande presença na rede, a começar pela página da International
Union for Quaternary Research,
com muitas informações gerais e ligações para outras páginas específicas,
como a da Commission on Terrestrial Processes, Deposits and History,
ou a da Commission on Human Evolution and Paleoecology.
Para além da nossa Associação Portuguesa para o Estudo do Quaternário, encontramos na web páginas de
instituições como a da Associação Brasileira de Estudos do Quaternário,
da Asociación Española para el estudio del Cuaternario,
da Quaternary Research Association (Reino Unido),
da American Quaternary Association,
da Australasian Quaternary Association
(AQUA),
da Association Française pour l'Etude du Quaternaire
e da Associazione Italiana per lo Studio del Quaternario.
No mesmo âmbito, acho muito útil o Dicionário de Abreviaturas do Quaternário, a lista de ligações do
Departamento de
Geologia do Colby College (EUA) e,
principalmente, a página do Quaternary Palaeoenvironments Group do
Godwin
Institute of Quaternary Research (Reino Unido),
com a sua excelente colecção de links.
As
relações entre a Geologia, a Biologia e a Arqueologia podem ser exploradas no site
Geoarchaeology e na página do Archaeobiology
Program Research.
Não
posso também aqui deixar de indicar uma série de sites que, apesar do
carácter generalista sobre Ambiente e Ecologia, podem ser fonte de informações
interessantes, como o Greenet, o Gateway
to Development, o Diary of a Planet,
sendo talvez o melhor o Earth’s Biggest Environment Search engine, apesar de um grafismo muito modesto. O meu
preferido é, porém, o da organização Idealist,
dedicado a promover acções relacionadas com o Ambiente. Um pouco por pensar
que todos temos responsabilidades e devemos contribuir para a protecção e a
promoção do Ambiente e do Património, aconselho, principalmente aos
estudantes, dois sites: o do Fieldwork
Opportunities Archaeological Bulletin - AFOB
e o Archeo-volunteers,
onde podem recolher informações sobre escavações e projectos de investigação
que necessitam da ajuda e colaboração de voluntários.
Vale
a pena dizer que Portugal, e principalmente os arqueólogos portugueses, têm
desde este ano uma associação que se dedica a Arqueologia e à Informática, a CAAP (Aplicações Informáticas à
Arqueologia - Portugal).
Afiliada na CAA internacional, já realizou um primeiro congresso em Tomar
(Abril 2003). O próximo será em Trás-os-Montes e esperemos ver muitos dos
leitores da Al-Madan entre o público e a apresentar trabalhos.
Este
ano cumpri finalmente a promessa de colocar online todos os links
dados até hoje na Al-Madan,
actualizando, quando necessário, as moradas e assinalando as que já não estão
disponíveis. Nesse site é também possível ler os artigos publicados
ao longos destes anos, embora de forma simplificada, sem imagens e sem a
excelente paginação a que já estamos habituados na revista.
Por
fim, termino com um apelo aos leitores para que ajudem a salvar a Fundação
Museu do Homem Americano, que tão excelente trabalho tem feito no Parque
Nacional da Serra da Capivara, Piauí, Brasil. Para mais informações visitem o
site dedicado à questão e assinem a
petição.
Boas
escavações na net!
Mila
Simões de Abreu (msabreu@utad.pt)
PS. Todas as moradas estavam activas em 31 de Dezembro de 2003